terça-feira, 13 de setembro de 2011

O CAMINHO DE SANTIAGO NO CONCELHO DE ESPOSENDE - UM CORREDOR CULTURAL –

Por: Manuel Albino Penteado Neiva

IV
DE GEMESES A S. PAIO DE ANTAS


"Entrai...
Senhora do Lago
Sois da casa: Em boa hora,
Daí a Bênção aos que chegam,
Mais a quem se for embora. "
(António Corrêa de Oliveira)

Estamos em Gemeses.
Caminho do Barqueiro
Passado o Rio Cávado acostamos no velho “Porto Gonduffi”, mesmo ao pé da vetusta Capelinha de Nossa Senhora do Lago, quiçá um dos locais mais edílicos do concelho de Esposende. Este espaço chamou-se, outrora, Largo Conselheiro Campos Henriques[1], hoje denomina-se Largo da Barca.
"...pare, companheiro amigo! Acabamos de entrar numa das mais formosas salas de visita do concelho! Sentemo-nos aqui neste banco de sílex puro e admiremos esta paisagem de sonho. Está a ver como as prateadas taínhas, ali no joelho do rio, saltam ao lume da água?"[2].
Desde sempre este local inspirou Poetas e Trovadores, Músicos e Pintores. Aqui se juntaram tertúlias de eruditos e investigadores, famílias aristocráticas e muito, muito povo anónimo que aqui acorria e acorre para usufruir das belezas naturais assim como beneficiar da áurea protectora de Nossa Senhora do Lago e de Santo Ovídeo.
Joaquim Leitão chamou-lhe “ lugar poético" e aconselhava o visitante a "ir vê-lo à vela pelo Cávado, espreitando o sorrir da maré".
Manuel de Boaventura fala deste lugar assim[3]:
 “Chegadinhas à borda – d'água as casas fidalgas, dos senhores de outras eras; mais chegada, ainda, a mesquinha casinhota do barqueiro (...). Depois, a Capelinha da Senhora do Lago (...); e logo, a vizinhar – a Estalagem – a famosa Estalagem da Barca do Lago, que certa Cristina Josefa, no último quartel do século de setecentos, ali fundou, para servir os viandantes (...).
Hoje, lá continua a Barca do Lago, mas sem a tradicional barca, sem estalagem, sem casas senhoriais – apenas o lugar onde a maior parte dessas casas se tornaram vivendas de gente de bens, para umas férias agradáveis! A célebre estalagem, há cerca de cem anos desaparecida, passou a mansão, onde turistas ingleses vêm passar os dias quentes do Estio. No Inverno, a Barca do Lago vive quase despovoada...”.
Em 1766 foi levantado aqui um padrão com os seguintes dizeres:
Este padrão mandou erguer à sua custa João de Vasconcelos de Melo, foi o senhor da Quinta da Barca do Lago e da Honra de Palmeira de Faro, como administrador e Presidente que é desta Barca do Lago, mandando nele gravar a inscrição seguinte, que a dita barca é de Amor de Deus para qualquer pessoa que por ela passar, assim de pé como de cavalo, não pagando coisa alguma, excepto os carros que não forem de Confrades, que esses pagarão 40 reis de cada vez, indo carregados, e vazios 10 reis; também nada pagarão de gado, de qualquer casta que seja.[4]
Aqui viveu o Poeta Medieval Fernão do Lago, aqui escreveu excelentes Cantigas de Amigo dedicadas a Nossa Senhora do Lago[5].
No Largo Barca do Lago deparamos desde logo com o Solar da Família Felgueiras Gayo.
Localiza-se mesmo junto à rampa das embarcações, quase que adoçada, pela parte traseira, à Capela de Nossa Senhora do Lago.
Possui num dos cunhais a pedra de armas, assente numa cartela decorativa, datadas do século XVIII, com Heráldica de Família e timbre de Coronel de Nobreza[6], de composição esquartelada, pertencente às Famílias: I – VASCONCELOS / II – GAIO / III- MELO / IV – PEREIRA.
Pertenceu a José Machado Paes de Araújo Felgueiras Gayo, casado com sua prima Rosa Maria do Lago Felgueiras Gayo, que era senhora da Casa da Fervença, em Gilmonde. Este casal era senhor da Quinta da Torre, em Palmeira de Faro e aí nasceu, em 21 de Dezembro de 1865, o seu filho Carlos Alberto Machado Paes de Araújo Felgueiras Gayo [7] que herdou o vínculo da Casa da Fervença e da Casa da Barca do Lago. Recebeu das mãos de D. Carlos, em 1905, o título de Visconde da Fervença. Casou com Cândida Gomes Vinha[8], em 17 de Janeiro de 1900[9].
Em 12 de Agosto de 1876, José Machado Paes Felgueiras Gaio solicitou ao Tabelião Thomaz de Miranda Sampaio, lhe passasse uma Pública Forma da doação da passagem da barca à sua família.
Imediatamente a seguir aparece a Capela de Nossa Senhora do Lago.
Não há dúvidas quanto à existência desta ermida em tempos mediévicos. Em 1290, nas Inquirições de D. Dinis, diz-se que “...em Soutello e em Santaes há hy dom Fernandu Periz hua quintaa e trees casaaes. E achey que ora des dez anos a ca faz honrra della vem da agua contra Santa Maria de Lago e sam sete homees os que la mete[10]. Neste local foram encontrados dois vestígios, um ainda no interior da Capela e o outro guardado no Museu de Arte Sacra, em Esposende, que são motivo para filiarmos esta pequena capela no movimento românico do séc. XIII.
Assim, no interior da Capela encontra-se uma Pia Baptismal de recorte românico e no Museu uma empena medieval, representado um touro, elemento muito tradicional na arquitectura medieval[11].
No Tombo de 1592 diz-se que “...Item esta Igreja de Gemeses anexa a Ermida de Nossa Senhora do Lago que está junto ao dito o rio do Cávado e de meio nos limites da dita Igreja[12]. 
Curiosamente e quando estudamos a Procuração / Doação que a Irmandade da Barca fez a Manuel Carneiro Gaio, em 1635, nela se diz que “...per sua devosão, mandaram estes fidalgos fazer na Sua Quinta da Barca, uma capela cuja hembocasão he emsalltasão da santa Crus he nosa snora do llaguo a pellegrina “, dotando a Capela com “...hestallages que tem na barca do llaguo jumto a pasage da dita barqua ...”.
No ângulo que a sacristia faz com o corpo da capela, voltada à estrada, há uma lápide com a epígrafe datada de 1732 “...SOLI. DEO. HONOR. ET. GLORIA. lTIM.VR. ANO. MDCCXXXII. ANTONIO A COSTA “. A fachada é decorada com dois florões que se erguem lateralmente e, no cento, é rematada por uma cruz assente num plinto facetado. Na parede sul ergue-se um pequeno arco sineiro, rematado, também, por uma cruz.
 Quase em frente à porta principal da Capela erguem-se as Alminhas da Barca do Lago[13], datáveis do século XVIII.
Trata-se de um conjunto “ elegante e majestoso” na sua composição, de granito em cantaria bem trabalhada. Possui um nicho amplo, a lembrar uma pequena capela. Tem forma rectangular e arco redondo com molduras a sugerir bases e capitéis. Lateralmente o conjunto foi enriquecido com pilastras, emolduradas, sobre as quais assenta o frontão que remata com volutas ao nível do fecho. A cobri-lo, um pequeno telhado. No interior, protegido por uma grade de ferro, há um altar em pedra, emoldurado sobre o qual está assente o retábulo em madeira, Nele estão pintados Cristo Crucificado ladeado por N. Senhora do Carmo e Santo António. Aos pés da cruz, com a balança na mão, está S. Miguel e mais abaixo dois anjos que vão retirando almas do Purgatório. Numa legenda, presente na parte inferior do painel, poder-se-á ler a seguinte legenda[14]: “ Ó vós que ides passando lembrai-vos / De nós que estamos penando “.
Com o portal armoriado e virada para a Capela da Senhora, outra casa senhorial marca presença. Estamos a falar do Solar dos Machados.
Ocupa um dos sítios mais pitorescos e surpreendentes de beleza do nosso formoso Minho, o único solar dos Machados, Mirandas, Pereiras e Villas-Boas, conhecido neste concelhosobresahe majestosa e severa, num amarelado tom de antiguidade medieval a torre do solar da Quinta da Barca do Lago”.
O acesso a esta solarenga habitação, nomeadamente ao seu pátio exterior, faz-se por um portal, de imponente arquitectura, coroado com o brasão de família, gravado em pedra, e encimado por altas ameias.
O Brasão diz-nos que este solar pertenceu aos descendentes dos MACHADOS, MIRANDAS, PEREYRAS E VILLAS-BOAS[15], famílias da mais alta linhagem que ocuparam cargos de governança quer no concelho, quer a nível da região. Este brasão foi registado no Livro de Privilégios da Câmara Municipal de Esposende, em 10 de Setembro de 1743[16], assim como no Livro dos Brasões da Nobreza de Portugal[17]. A Carta de Brasão de Armas foi passada a 12 de Novembro de 1743 [18] e dada pelo Rei D. João V.
Dele se faz a seguinte descrição “... O Elmo e timbre como no fim se descreve, e o brasão como fiel e verdadeiramente se achou divisado nos livros de registo de Armas dos nobres e fidalgos deste reino, e a seguir se descreve um escudo esquartelado: no primeiro quartel as armas dos MACHADOS em campo sanguíneo, sendo os machados de prata com cabos de ouro; no segundo quartel a dos MIRANDAS que são em campo de ouro uma aspa sanguínea entre quatro flores de liz verde; no terceiro quartel, a dos PEREIRAS que são em campo sanguíneo uma cruz de prata florida e vazia de campo; no quarto quartel a dos VILLAS-BOAS que são esquarteladas tendo no primeiro quartel em campo sanguíneo um castelo de prata comportas de preto e do meio saem um ramo de palma verde; no segundo quartel em campo azul um drago de prata com rabo retorcido armado de púrpura. Elmo de prata aberta guarnecido de ouro paquife dos metais e cores das almas. O Timbre é dos MACHADOS, a saber: dois machados em aspa, atados com um cordão sanguíneo e por diferença uma brica de ouro com um trifólio verde = “.
Aquando as Invasões francesas, de princípios do século XIX, este solar serviu de Quartel-general às tropas do General Soult.
 Ainda no Largo da Barca temos a casa da Quinta da Barca do Lago (Pereira da Costa), Possui na sua frontaria a seguinte inscrição, em pedra mármore, com letras douradas -  Casa onde nasceu em 29 de Maio de 1818 José Pereira da Costa (exportador de vinhos). Falecido no Porto em 18 de Novembro de 1898 “.
Entremos na Rua P.e Sá Pereira e logo à frente encontramos o Cruzeiro da Barca. De arquitectura simples e sem arte, foi para ali mudado de um terreno que ficava dentro da Quinta das Pereiras do Costa[19].
Adoçadas a uma das casas tradicionais de Gemeses, que pertenceu a D. Ida das Eiras, onde se destaca o xisto e o granito na sua construção e a grande chaminé a ocupar na totalidade uma das paredes da habitação, estão as Alminhas de Santo Ovídeo.
São constituídas por um único bloco granítico, com um nicho rectangular de arco contracurvado rematado por uma cruz de braços simples. Poderão ser datáveis do Séc. XIX.
Na Rua P.e Sá Pereira, à esquerda, ergue-se o Cruzeiro de Santo Ovídeo. Trata-se de um monumento de traça recente pese embora a grande tradição desse lugar ao culto de Santo Ovídeo. Não longe deste cruzeiro, e já na Freguesia de Gandra, existe uma Capela cuja invocação é Nossa Senhora de Guadalupe. Esta ermida foi fundada por voto dos Gandrenses, em meados do século XVI, por motivo das epidemias que grassaram nesta zona entre 1505 e 1579.
Voltemos ao Cruzeiro de Santo Ovídeo.
Nesse mesmo local, virando ligeiramente à direita, entremos na Travessa da Tomadia. Estamos a decalcar a antiga Estrada Real. Passa-se por entre campos de cultivo e pinhal, perto dos limites da Freguesia de Gandra. Este troço denota bastante abandono e, em determinado sítio foi substituído por uma via que corre paralela ao IC1 até à Bouça do Preto, já nos limites de Palmeira de Faro. O topónimo Palmeira é demais evidente quanto à sua ligação a peregrinos. Liga-se estritamente à invocação de Santiago. Provém do bordão de palma que os peregrinos usavam como símbolo da sua longa jornada.
Estamos em Marinhas.
Estrada Real
Atravessando a Estrada Nacional 103-1 (Esposende – Barcelos), segue-se em frente (Estrada Municipal 551) tomando a Rua do Marco. Já no lugar de Góios (Marinhas), na bifurcação de estradas junto ao marco do Cabido de Braga (data de 1813) tomar a rua da direita – Rua da Estrada Real. A poucos metros deste ponto de bifurcação ergue-se a Capela de S. Roque[20], fundada entre o séc. XIV e XVI[21].
Retomamos a Estrada Real em direcção a norte. Olhando à direita sobressai o Monte de Faro, uma atalaia bem referenciada em documentação medieval.
No lugar da Gatanheira (Marinhas) cruza-se a Estrada Municipal 550 (Esposende – Vila Chã). Em frente continua-se na Estrada Real. Olhando à direita, mais uma vez a imponente arriba fóssil de S. Lourenço chama-nos à atenção. Altaneira, a Capela do Bem-Aventurado e Mártir S. Lourenço (Vila Chã) é uma referência obrigatória. Edificada antes do século XVI, assenta sobre um povoado da Idade do Ferro. O Castro de S. Lourenço[22], uma das mais importantes estações arqueológicas da região, merece uma visita[23].
Continuando a caminhar na Estrada Real, do lado esquerdo o lugar de Pinhote (Marinhas). Aqui venera-se, na sua Capela edificada em 1728, o fundador da Ordem Beneditina, S.Bento[24]. Prosseguindo, vamos encontrar o Caminho Municipal 1012 (Marinhas – Vila Chã) designado por Rua da Abelheira. Viramos à direita nesse arruamento em direcção aos velhos moinhos e azenhas. Estamos perante um dos paraísos das tecnologias tradicionais. Centenários moinhos de vento, azenhas copeiras, engenhos de serração de madeira, engenhos de triturar o linho, marcam uma actividade tradicional há muito perdida. Estas pequenas “fábricas” são referenciadas em documentação de 1549.
Moinhos de Abelheira
Depois de passar na encosta dos moinhos, vira-se à esquerda entrando na Rua do Cancelinho. Cruza-se o Rego de Peralta a quem se deve a força motriz para fazer girar as rodas copeiras das azenhas. Ao encontrar um cruzamento, virar à direita na Rua da Estrada Velha. Entra-se na Rua do Marco que nos conduz através do Lugar de Rio de Moinhos (Marinhas). Muito próximo deste arruamento, do lado esquerdo, foi erigida em 1603 a Capela de Nossa Senhora das Neves, outrora Nossa Senhora de Monserrate[25]. Ainda na Rua do Marco, e virados a nascente, bem no alto da arriba, deparamos com uma Capelinha cuja invocação é Nossa S.ra da Paz. É de construção recente[26]. No entanto, nesse mesmo cabeço, localiza-se um pequeno habitat da Idade do Ferro.
Depois de percorrer a Rua do Marco, encontramos o limite de Marinhas com a freguesia de S. Bartolomeu do Mar. Mais uma vez um marco do Cabido de Braga (1813) estabelece esta divisória.
Estamos em S. Bartolomeu do Mar.
Entramos pela Rua da Estrada Real.
Estamos na freguesia onde se celebra a 24 de Agosto a festa em honra de S. Bartolomeu, com o tradicional Banho Santo e a oferta do frango negro[27].
A Rua da Estrada Real atravessa a totalidade da freguesia de Sul a Norte, até ao limite desta com a de Belinho. Este limite é assinalado com um interessante Marco que ostenta as Armas da Real Casa de Bragança.
Estamos em Belinho.
 Num Livro de Óbitos de Belinho lê-se: “Faleceu da nação Alemanha, Católico Romano, aos dezanove dias do mês de Outubro de 1777 anos, vindo de Santiago da Galiza, nesta freguesia sem sacramentos por ser de repente e chamando-me para o confessar fui logo com o chamador e achei já falecido. Foi sepultado dentro desta igreja de S. Pedro Fins de Belinho”.
Entramos e seguimos pela Rua do Marco do Rei, até ao cruzamento da Rua Padre Almeida. Aqui viramos à direita por este arruamento. À nossa direita corre a arriba fóssil e ao iniciar-se Belinho, deparamos com o primeiro cabeço que é chamado Monte das Aras. Certamente um topónimo indicativo de que por aí floresceram antigos cultos ou se edificaram túmulos megalíticos. Também neste mesmo correr, existiu na Cova da Bouça, um habitat castrejo da Idade do Ferro. Vislumbram-se ainda vestígios da primitiva muralha, construída à base de grandes blocos graníticos, e de algumas casas de planta circular. Aqui apareceu uma espada de tipo “argárico” e dois machados de bronze, depositados num Museu em Braga.
Virar à esquerda na Rua do Cruzeiro. Logo a seguir vamos encontrar o Cruzeiro da Velha (Séc. XVIII). Este monumento localiza-se num pequeno largo, na berma do primitivo caminho – Estrada Velha. É composto por uma base com três degraus sobre a qual assenta um plinto de forma quadrangular. Em cima deste ergue-se um fuste liso, encimado por um capitel globular decorado com motivos florais e geométricos. É rematado por uma cruz simples.
Nesse pequeno largo virar à direita na Rua Padre Rodrigues até cruzar a Avenida da Igreja. Seguir em frente pela Rua Padre Albino Alves Pereira – antiga Estrada Velha, até atingir a Rua de Santo Amaro. Aqui, para além de casas de arquitectura tradicional, vamos encontrar a Capela de Santo Amaro[28], já na Rua Padre Avelino Alves Sampaio. Esta devoção está muito ligada aos Caminhos de Santiago. Aliás dele se diz que foi o primeiro romeiro do paraíso terreal e, depois, peregrino de Santiago. Está ligado à cura de doenças das pernas e dos pés. Esta Capela é de arquitectura bastante simples, sem elementos que a possam enquadrar em qualquer estilo. Possui, na cruz que se ergue na empena do altar, a data de 1671.
Belinho
Retomemos a Rua Padre Avelino Alves Sampaio até à próxima bifurcação de Estradas.
Num pequeno desvio à direita, no lugar da Portela, vamos encontrar, num pequeno outeiro, a pequena Capela de S. Cristóvão[29]. A sua fundação remonta a 1553, tendo sido instituidor o P.e António Barbosa, Abade de Santa Leocádia de Geraz do Lima e Abade de Belinho em 1523. É de arquitectura simples, com a porta manuelina virada para poente. No seu interior existe uma pedra tumular com a data de 1635. Mesmo em frente a esta Capela ergue-se o Monte da Cividade, um povoado da Idade do Ferro[30].
Aí seguimos pela esquerda, pela Rua José Gonçalves Pereira de Barros. Logo a seguir, à direita, tomemos a Rua Barão de Maracaná. A facetar com o início desta rua vamos encontrar o Solar da Paia – residência do Barão de Maracaná[31]. Esta casa solarenga foi mandada edificar em 1884.


[1] - Reunião de Câmara de 30 de Agosto de 1902.
[2] - CUNHA, Boanerges – Passeia Turístico, in “Vila e concelho de Esposende no IV Centenário”, Esposende, 1972
[3] - BOAVENTURA, Manuel de (1960) – Zé do Telhado no Minho, Barcelos.
[4] - VIEIRA, José Augusto (1887) – Minho Pitoresco, Tomo II.
[5] - NEIVA, Manuel Albino Penteado (2003) - Gemeses: Terra de Passagem, Ed. Fábrica da Igreja de Gemeses, Gemeses. Neste livro foi dedicado um capítulo especial dedicado ao Poeta Fernão do Lago.
[6] - NÓBREGA, Artur Vaz-Osório da – Pedras de Armas e Armas Tumulares do Distrito de Braga (Heráldica), Vol. VI: Concelhos de Barcelos (Além-Cávado) e Esposende, Braga, 1977
[7] - Faleceu a 11 de Setembro de 1943, na Casa da Barreta, em Barcelos.
[8] - Faleceu em 26 de Agosto de 1914, na Casa da Fervença.
[9] - TRIGUEIROS, António Júlio Limpo, et. al. – Barcelos Histórico Monumental e Artístico, Braga, 1998.
[10] - A.N.T.T. – Inquirições de D. Dinis, L.º 1 – D’Além Douro, fl. 94, 157 e 268
[11] - NEIVA, Manuel Albino Penteado Neiva; COUTINHO, Manuel Alves – Estátua Zoomórfica de Gemeses – Esposende: Um Touro Proto-Histórico, Esposende, 1982 
[12] - A.D.B. – R. G. L.º N.º 4 
[13] - NEIVA, Manuel Albino Penteado - Esposende. Páginas de Memórias. Esposende, 1991.
[14] - ALMEIDA, Carlos Alberto Brochado de – Levantamento cultura, no âmbito do PDM.
[15] - VIEIRA, José da Silva – Caderno de Apontamentos para a História do Concelho de Esposende, II Série, Esposende, 1917
[16] - A.M.E. – Livro de Registo de Privilégios
[17] - Livro IX do Registo de Brasões da Nobreza de Portugal., fl. 222
[18] - Esta Carta de Brasão de Armas foi passada a Manuel Machado de Miranda Pereira, Sargento-Mór de Esposende.
Era filho de Bernardo Ferreira Machado e de Urbana Pereira de Vilas-Boas , sendo esta, por sua vez, filha de Francisco Pereira e bisneta de Miguel Pereira do Lago.
[19] - Manuel Alves Coutinho – Monografia de Gemeses: Para a História da Barca do Lago: Cruzeiros, in “ Nascer de Novo”, Ano III, N.º 28 (Abr. 1982)
[20] - Roque de Montpellier (16 de Agosto). Nasceu em Montpellier nos meados do século XIV. Segundo os hagiologistas, tinha uma marca de nascença no peito com uma forma de cruz, em vermelho – daí o seu nome Roc, de “rouge”. Ficou muito cedo órfão e a seguir desfez-se de todos os seus bens a favor dos pobres e dos hospícios. Foi depois como peregrino a Roma. No seu regresso procurou dar assistência a empestados. Contraiu esta terrível peste ficando com o corpo cheio de chagas. Sentiu-se abandonado e passou a ser alimentado por um seu vizinho que lhe mandava, diariamente, o seu pão por um cão. Curado, voltou à sua terra onde já ninguém o conhecia, acabando por ser preso. Morreu no cárcere aí por 1397. Iconograficamente aparece vestido de Peregrino, com bordão, chapeirão, cabaça e sacola. Mostra na sua perna a ferida pestilenta e, ao seu lado, o seu fiel amigo o cão que lhe levava a comida. (TAVARES, Jorge Campos (1990) – Dicionário de Santos …, Ed. Lello e Irmão, Porto).
[21] - Esta Capela enquadra-se num espaçoso largo fronteiro. A sua arquitectura poder-se-á enquadrar num estilo chão ou pré-barroco. A encimar a porta principal com volutas, voltada a poente, abre-se um nicho com a imagem de S. Roque, em granito.
[22] - ALMEIDA, Carlos Alberto Brochado de; CUNHA, Rui M. Cavalheiro da (1997) – O Castro de S. Lourenço: Vila Chã (Esposende), Ed. Câmara Municipal de Esposende, Esposende.
[23] - NEIVA, Manuel Albino Penteado (1999) – Vila Chã: Uma Terra Milenar, Ed. Junta de Freguesia, Vila Chã
[24] - É uma construção simples, de alvenaria a descoberto, de planta rectangular. A sua erecção deve-se a Pascoal Gomes de Aguiar e a sua mulher Brígida Maria Pimentel. A sua fachada é simples, rematada por um frontão encimado por uma cruz. A ladear a porta principal, dois postigos permitem a entrada ténue de luz.
[25] - Este templo está enquadrado num adro delimitado por um muro de granito, bem aparelhado, com pedestais encimados por esferas, nas entradas do mesmo. A Capela possui um pórtico neo-clássico com frontão triangular. Muito próximo ergue-se o cruzeiro assente numa base de cinco degraus, com fuste cilíndrico e capitel encimado por uma esfera rematada por uma cruz florenciada.
[26] - Foi mandada edificar pelo Padre Anselmo Boaventura Rego – Conde de Madimba, em 1946.
[27] - Em S. Bartolomeu do Mar aconselha-se a visita à velha Igreja Paroquial, local onde foi preso o estadista liberal, Ministro do Reino e Príncipe dos Jornalistas, António Rodrigues Sampaio. Também, e junto à actual Igreja Paroquial, é de referenciar o Menhir ou Estátua Menhir aqui existente.
[28] - AMARO (Mauro de Glanfeuil – 15 de Janeiro) – Terá nascido em Roma por volta de 510 e morrido em Glanfeuil (Anjou) em 584. Foi discípulo de S. Bento e fundou em 528 a Abadia de Monte Cassino. Iconograficamente apresenta-se vestido de frade com o capuz e tem como atributo um báculo abacial e uma muleta.
[29] - CRISTOVÃO (25 de Julho) – Trata-se de um santo lendário. Terá sido convertido por S. Bartolomeu e desejando servir a Deus, fez-se eremita e colocou toda a sua compleição física para ajudar as pessoas que desejavam atravessar o rio a vau. É protector contra a morte súbita, patrono dos caminhantes e, normalmente as suas capelas localizam-se junto aos rios. Tem como atributo um bastão formado por um ramo de árvore, muitas vezes ramo de palmeira.
[30] - Este povoado foi escavado em 1924 pelo próprio Poeta António Corrêa D’Oliveira, tendo posto a descoberto algumas habitações circulares, lanços de muralha e exumado espólio cerâmico e fíbulas.
[31] - Manuel Gonçalves Pereira de Barros nasceu em S. Paio de Antas (Esposende) em 17 de Março de 1806. Com treze anos de idade, em 13 de Maio de 1819, emigrou para o Brasil a bordo da galera Sociedade Feliz. Aí ganhou fortuna usando-a, em grande parte, em obras de benemerência e altruísmo.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O CAMINHO DE SANTIAGO NO CONCELHO DE ESPOSENDE - UM CORREDOR CULTURAL –

Por: Manuel Albino Penteado Neiva

III
A BARCA DO LAGO


Este ponto do itinerário merece um tratamento especial. Se dúvidas podem existir quanto ao curso do Caminho de Santiago de Rates à Barca do Lago, pois ao longo dos séculos poder-se-á ter alterado, não restam as mínimas dúvidas que, pelo menos até 1892 – altura em que é inaugurada a Ponte D. Luís Filipe, em Fão, este era o local, mais próximo da costa, onde os viajantes e os peregrinos cruzavam o Rio Cávado[1]. Aqui ancorou séculos e séculos a “Barca-por-Amor-de-Deus”. São inúmeras as descrições deste local em roteiros de peregrinação, desde os tempos mais remotos[2].
É evidente que no Século XIII esta passagem já seria importante ao ponto de influenciar a própria toponímia e antroponímia. Não é por acaso que nas Inquirições de D. Afonso III, em 1258, aparece em destaque o topónimo Porto Gonduffi.
Sobre este "Porto” têm-se levantado algumas hipóteses apontando para um germanismo. O Dr. Eduardo Regado[3] relacionou este topónimo com um outro existente na margem esquerda do Cávado – Felícia (Picoutos), quase em frente à Barca do Lago.
É assim que aparece em 1258 "esses que moram no Porto de Gonduffi soyam a dar renda al rey e ora no na dam “, e mais uma vez aparece associado ao termo “Gonduffi” a designação “Porto” que, segundo Cláudio Basto, “...é o sítio entre uma e outra margem, por onde se atravessa, se passa o curso de água, seja de que maneira for». Assim, a palavra porto tem o significado de «atravessadouro» de rio ou passagem.”
Cadafaz de Matos aponta a Barca do Lago como a possível passagem por onde terá transitado, em 1244, D. Sancho II aquando a sua peregrinação ao apóstolo da Galiza.
Curiosamente numa Procuração feita pelos irmãos da Irmandade da Barca do Lago a Manuel Carneiro Gaio, datada de 1635, diz-se "...ser esta passagem muito frequentada estando nesta pacífica posse pôr mais de 400 anos". Sendo assim, estarmos a recuar pelo menos em tradição, o funcionamento desta barca passagem, neste mesmo local, já desde o Século XI.
Nesta barca terá passado El-Rei D. Manuel I quando, também, foi em peregrinação a Santiago de Compostela e mandando pagar aos barqueiros, estes não quiseram receber respondendo: - “ Não é nada; é por Deus"[4].
A barca na pintura de José de Freitas
Esta passagem ficou registada no diário de viagem de Dom Edme de Saulieu, Abade de Claraval, que realizou essa viagem em 1531[5]. O Dr. António Cruz aborda esse roteiro de viagem nestes termos:
“...na festa dos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo do ano de 1532, descendo a faixa atlântica, depois de terem atravessado o rio Minho e demorado em Caminha, chegaram a Viana do Castelo … Reiniciando a caminhada, esperava Bronseval encontrar o Dom Abade hospedado em Belinho, o que denota, de alguma maneira, que o itinerário da jornada havia sido delineado de acordo com estudo prévio das terras a incluir na caminhada de cada dia, implicando, por isso, o conhecimento dessas mesmas terras, obtido, sem dúvida, na leitura dos anteriores Itinerários de outros caminheiros. Porém, não foi em Belinho, como esperava, que o Dom Abade pôde aposentar-se, nem tão pouco em S. Bartolomeu do Mar: num e outro lugar, os seus moradores, muito embora, e acaso, o desejassem fazer, não puderam ofertar-lhes aposentadoria, ou, sequer, abrigo para os cavalos.
Afastando-se um pouco da costa e prosseguindo a caminhada, encontraram, aqui e além, casas isoladas, mas não o abrigo desejado. Descia a noite, quando uma pobre mulher, finalmente, acolheu os viandantes e deu abrigo às suas montadas. E se não foi servida qualquer refeição a Monsenhor e à sua comitiva, não faltou um leito para o primeiro, improvisado sobre uma arca, recolhendo-se os seus companheiros, sem despirem os fatos da jornada, no cabanal dos porcos e das ovelhas, também destinado a abrigo das montadas.
O Dom Abade de Claraval celebrou missa, na manhã seguinte, numa pequena capela campestre, assistido por alguns dos seus homens, enquanto os outros cuidavam das bagagens e dos animais... Reiniciando a jornada, não demoraram o Dom Abade de Claraval e os seus companheiros a atravessar o rio no preciso lugar de todos os itinerários que remontavam à alta Idade Média. A estrada velha ia direita a Rates, entroncando aí com outra de acesso a Barcelos. Bronseval gaba a tranquilidade do Cávado, nestes precisos termos: un fleuve lent, mais tres profond et tranquille “.
Em 1669, o Grão-Duque da Toscana, Cosme III de Médicis (1670-1723) "acompanhado de grande séquito”, viajou em peregrinação a Compostela. Chegou a Compostela em Março do ano seguinte, 1670, depois de ter entrado em Portugal, por Badajoz[6]. Do seu diário consta que:
“...Este Cosme de Médicis, 3.º de nome, chegou a Viana da Foz do Lima em 28 de Fevereiro de 1669. Veio pela borda do mar pois a 27 esteve em Moreira e S. Pedro de Rates (...) A sua comitiva era numerosíssima, como convinha a tão opulenta personagem, e nem nela faltava um pintor para anotar os aspectos notáveis das terras por onde iam passando. Na manha do dia 28, segundo o relato, com tempo vário que resolveu em ligeirissima chuva (piogia) partiu sua Alteza de S. Pedro de Rates e passado o rio de Prado com barca andou a procurar a praia do mar, sobre as vilas de Fão e Esposende, uma sobre a margem outra à borda do mar”[7] .
Em 22 de Março de 1683 foi chamado o Padre Bento Leitão para celebrar um baptizado de uma criança a quem os pais chamaram Leonor. Curiosamente esta criança nasceu na Barca do Lago, na “estalage” e eram seus pais Santiago Balthazar e Magdalena Ocoonor, de nacionalidade irlandesa. Estavam de “passaje” para Santiago, quando acolheram à estalagem da barca para nascer a criança. Foram padrinhos Francisco Rodrigues – o estalajadeiro “ na mesma estalage” e Ana Lopes.
Também Domenico Laffi, um sacerdote Bolonhês, grande devoto de Santiago, que tinha já peregrinado a Compostela três vezes (1666,1670 e 1673) faria em 1687 uma nova peregrinação. Esta viagem foi descrita detalhadamente[8] e sabe-se que em 5 de Outubro de 1687 deixou cidade do Porto em direcção a Rates e daí a Viana passando na Barca do Lago.
Mais tarde, em 1743, Nicolás Albani, um cidadão Napolitano, veio em peregrinação a Santiago de Compostela. Fez uma descrição cuidada do seu regresso, entre aquele centro de peregrinação e Lisboa, saindo daquela cidade em 12 de Dezembro desse ano. Nessa sua viagem descreve que de Ponte de Lima para Vila do Conde "Caminhei todo o dia sobre areia, à borda do Mar"[9]. Estarmos certos de que seguiu de Viana para Esposende, junto ao mar e daí passou na Barca do Lago dirigindo se a Vila do Conde.
Em 28 de Abril de 1725, em passagem pela Barca do Lago, morreu repentinamente Francisca de Sea, natural de La Guardia, Reino de Galiza. Ficou sepultada nesta Igreja de Gemeses[10].
Em 7 de Setembro de 1746 “ se afogou Dom António de Santa Ursella “, que vinha de peregrinação e ia para a cidade do Porto. Era Frade Crúzio e se achou afogado no lago, junto ao muro por detrás da Capela. Foi enterrado com todas as solenidades na Igreja Paroquial, nas sepulturas destinadas a Clérigos, tendo sido sufragado por 40 padres. Era natural de Lisboa.
Quando foram redigidas as Memórias Paroquiais, em 1758, o texto de Gemeses descrevia assim a Barca do Lago:
“Aqui está a barqua do Lago, que he por donde passa a estrada real da cid.e do Porto p.a Villa de Vianna, e passa de graça a toda a casta de passajeiros, e só os carros, q nella passão, indo carregados pagam 40 reis cada hú, e não levando nada pagão a 20 rs … Os moradores desta fr.a, a de Gandra e a metade da de PaIm.a não pagam nada; por estarem obrg.d esta freg.a a dar dois barq.os a de Palm.a, e a de Gandra outros 2 cada hua seu; a metade dos moradores da freg.a de Palm.a meya raza de milho, e os solteiros a coarto. E os moradores do Castelo do Neyva cada hum seu molho de cevada branca, e os da freguesia de Velinho cada hú seu molho de centeyo, os das frg.as de S. Bartholomeu, e de s. Miguel das Marinhas cada um seu molho de trigo, e outro de centeyo … da parte do Sul a freg.a de Fonte boa, a de Barq.os, e a de S. Miguel da Apullia cada morador he obrigd.o a lhe dar hu molho de trigo, outro de centeyo; e os da frg.a de S.ta Marinha de Rio Tinto cada hu 2 molhos de centeyo; e os moradores do lugar de Guilheta da frg.a de S. Payo dantes da parte do Norte cada hu seu molho de centeyo.
Nesta passaje há húa estallaje, q he do sobredito Joam de Vasconcellos, q bem podia tambem chamar-Ihe hospital pella carid.e com q de ordinr o se ha o estalijadeiro com os passajr, q considerando-os a todos tocados de febre os vay sangrando lentamente.
Mas nem sempre se passou confortavelmente nesta Barca, muito menos eram bons serviços prestados pelos estalajadeiros. Dessa pobreza dá-nos conta uma memória redigida em 1820, escrita aquando a viagem de Domingos de Oliveira Maia a Paris [11] e em certo momento escreveu que “...Pousaram na Barca do Lago, passando a primeira noite fora de portas em camas de colmo podre. Só foi capaz de os fazer passar pelo sono o cansaço da jornada. Na madrugada do dia seguinte partiram da «infernal pousada» sem levarem saudades. O taberneiro fez pagar bem a impertinência dos hóspedes.

A “Barca-Por-Deus”

Hoje, a Barca do Lago cobra a portagem; mas aquelle madeiro, idoso, gradeado como de barcas, ainda nos leva pela sua tradição cândida a fazer a inútil travessia das suas tábuas que um velhotes torneia com a vara de modo a, quando a proa vira, já a popa está encalhada na areia da outra margem como se um eixo a atravessasse a meio da quilha.[12]
Num trabalho de Adélio Marinho Macedo em que descreveu as barcas existentes no rio Cávado, a jusante de Prado, tivemos oportunidade de ler a memória desta barca, reportando-se, naturalmente, a uma descrição recente que não irá para além de princípios do século XX. Ao deslocar-se a Gemeses, o autor procurou saber junto de pessoas mais idosas “coisas” sobre esta passagem, a forma como se fazia e sobre tudo isso escreveu que:
“... Algumas informações conseguiram-se junto de pessoas que viveram em contacto diário durante vários anos com a tal barca de carga; a escassa documentação existente sobre este assunto pouco ou nada nos esclareceu quanto à forma e estrutura desta tão rudimentar embarcação. Valeu-nos uma reprodução que encontrámos na Barca do Lago, construída anos atrás para figurar num «Cortejo Etnográfico» das Festas das Cruzes; embora de proporções totalmente desencontradas das da extinta barca, foi, no entanto, a nossa melhor orientação no respeitante à sua estrutura e construção.
Simétrica em relação a um eixo longitudinal e outro transversal, a sua planta era de forma rectangular, com ligeira curvatura (para fora) dos lados maiores; o fundo apresentava uma pequena convexidade no sentido de cada um dos seus dois eixos, maior e menor. Os lados detinham-se um pouco acima do nível do estrado (chão ou soalho) e dos topos das testeiras que se erguiam na vertical, e ligavam ao fundo, através de concordâncias curvas - encolamento - cujo nome não foi possível apurar. As bordas eram ainda protegidas por meio de uma guarda (grades, varais ou resguarda).
As grossas cavernas (cadilhas), formadas por duas ou três peças, ficavam a pequena distância umas das outras; serviam de base aos pontaletes (barrotes) que aguentavam as travessas transversais onde eram pregadas as tábuas que formavam o estrado (chão).
O tabuado do casco era fixo ao cavername com cavilhas de madeira e pregos, encostando-se as tábuas umas às outras sem haver sobreposição.
As rampas de acesso situavam-se nos topos da embarcação, e ora eram descidas para se fazer a carga e descarga, ora erguidas em trânsito. Cada uma delas girava no topo da respectiva testeira, por meio de um cano que lhe servia de eixo e com o qual era solidária; este funcionava em dois ganchos fixos à parte superior das testeiras. Junto ao estrado (chão), outros dois ganchos seguravam as alavancas que faziam erguer a rampa; ao mesmo tempo uma série de travessas apostas pela face inferior constituíam suporte transversal ao tabuado que a formava.
A meio do estrado (chão) encontrava-se um alçapão quadrangular que dava entrada a um pequeno porão ou falso de onde o barqueiro tirava a água que a barca colhia
Dos registos existentes na Direcção Hidráulica do Douro copiámos o que se supõe constituir as dimensões da última barca que serviu na Barca do Lago (registada em 1941 e extinta em 1947)[13] .”


Comprimento
(m)
Pontal
(m)
Boca
(m)
Tonelagem
(Kg)

Barca do Lago

9,90
0,65
3,2
6324



[1] - Sabemos, também, que no cais de Fão existia um barco que fazia a passagem das pessoas de uma margem para outra. No entanto e dada a correnteza que aí se fazia sentir, não era de todo uma passagem que oferecesse segurança.
[2] - Para melhor conhecimento desta Barca de Passagem aconselhamos a leitura de: NEIVA, Manuel Albino Penteado (2003) – Gemeses: Terra de Passagem, Ed. Fábrica da Igreja de Gemeses, Gemeses. Neste livro foi dedicado um capítulo especial intitulado A Barca do Lago: A Passagem da História.
[3] - REGADO, Eduardo – Barca do Lago: O Antigo Porto Gonduffi, in “O Fangueiro”, Ano II, N.º 29 de 26.4.1959
[4] - VILLAS-BOAS, Conde de (1949) – A Barca do Lago, in “Douro Litoral”, Porto, 3,ª Série, N.º 5.
[5] - Claude de Bonserval – Peregrinatio Hispanica, 1531-1533, I, Paris, pp. 306-313
[6] - CUNHA, Arlindo de Magalhães Ribeiro da -  A Devoção a Santiago no Concelho de Barcelos, in “Actas do Congresso Barcelos Terra Condal”, Barcelos
[7] - QUEIROZ, Francisco de – Cosme de Médicis em Viana do Castelo, in “Arquivo do Alto Minho”, Vol. I, Fasc. I
[8] - CUSATIS, Brunello de – O Portugal de Seiscentos na “Viagem de Pádua a Lisboa” de Domenico Laffi, Lisboa, 1998
[9] - ALBANI, Nicolás – Viagem de Nápoles a Santiago de Galícia, version castelhana de Isabel Gonzalez, Madrid, 1993
[10] - A.D.B. – Livro Misto N.º 4
[11] - A.B. – Evocação de uma viagem a Paris em 1820, in “2.º Caderno de O Primeiro de Janeiro” de 1.1.1966
[12] LEITÃO, Joaquim (1908) – Guia Ilustrado de Esposende
[13] - MACEDO, Adélio Marinho de e FIGUEREDO, José António – As Barcas de Passagem do Cávado, a Jusante de Prado, Cadernos de Etnografia, N. 5, Barcelos, 1966

sábado, 3 de setembro de 2011

O CAMINHO DE SANTIAGO NO CONCELHO DE ESPOSENDE - UM CORREDOR CULTURAL –

 II

DE RATES Á BARCA DO LAGO

 Por: Manuel Albino Penteado Neiva

No mapa de Entre-Douro-e-Minho, desenhado por Romão Eloy em 1808, aparece o traçado desta estrada, como via principal, passando por Rates, Terra Negra (julgamos estar a referir-se à Lagoa Negra), Barca do Lago, Esposende, Rio de Moinhos, Belinho e Viana. Neste mapa, da Barca do Lago seguia, pela margem direita do Cávado, uma estrada para Barcelos. Daqui continuava para a Ponte de Anhel e aqui bifurcava-se ou para Viana ou então para Ponte de Lima.
 Saindo de Rates[1] e aqui os seus moradores, em 1603, estavam isentos do pagamento de 120 copas de palha porque ficavam “ na passagem para a vila de Viana”, a “carreira velha”, já referenciada em documentos de 1303, seguia em direcção à Cova de Andorinha. Daqui esta estrada seguia pela Lagoa Negra – lugar de Barqueiros[2]. Aqui em Lagoa Negra vamos encontrar a chamada “carreira mourisca” e, também, uma via romana que conduziria às velhas minas. Este não era, no entanto, o percurso a seguir pelos peregrinos. A estrada que desde a Idade Média e até ao século XVIII conduziu à Barca do Lago passava um pouco a poente do lugar de Vilares (Barqueiros).
Curiosamente o Prof. Brochado de Almeida identifica esta estrada como a possível “Via Veteris[3] – a estrada romana que ligaria Rates à Barca do Lago e correspondendo, certamente, ao caminho de Santiago em época medieval. Esta via depois de sair da Cova da Andorinha, dirigia-se a direito para a Azenha do Gadelhas e daí à lagoa. Cruzava a actual estrada Necessidades – Apúlia, a poente do lugar de Vilares. Daí seguia pela actual exploração de caulinos, entrando no aro territorial de Fonte Boa. Em documentos datados de 1549, quando estudamos esta freguesia[4] encontramos a referência à “estrada mourisca” que vinha de Rates para a Barca, passando pela Lagoa Negra. Este último troço, devido às minas de caulino aí existentes, ficou completamente descaracterizado.

Estamos em Fonte Boa.

Traçado do Caminho em Fonte Boa
Entramos através da estrada dos Cavaleiros (antiga Estrada Real, também conhecido por Caminho dos Cavaleiros, que se prolongará até à Barca do Lago), depois de percorrer um troço de caminho completamente descaracterizado. Ao terminar a Rua dos Cavaleiros, cruzamos a Rua do Couto[5] e a Rua da Agra. Em frente tomamos a Rua do Espírito Santo que, em determinado sítio assume o nome de Rua da Cruz. Aqui situar-se-ia a primitiva igreja da então Fonte Má, designação usada até meados do século XVI. Este templo localizar-se-ia no agora denominado Campo do Espírito Santo. Segundo Teotónio da Fonseca, para memória desta velha igreja o Abade de Fonte Boa Dr. Manuel Malheiro Marinho[6] (1714-1739) reformou o seu antigo cruzeiro, erigindo um novo nesse mesmo local. Aqui foram encontrados dois sarcófagos monolíticos medievais, um dos quais está depositado na casa da antiga Residência Paroquial.
Caminho dos Cavaleiros
Chegamos ao Cruzeiro do Senhor do Bom Fim. Trata-se de um cruzeiro alpendrado protegido por um gradeamento. O cruzeiro propriamente dito, é constituído por um plinto quadrangular onde assenta um fuste de pedra. Neste fuste foram pintadas as figuras de Cristo, N. S.ra da Agonia e os símbolos da Paixão. Trata-se de um monumento do século XVIII. Junto a este Cruzeiro, e adoçadas à Casa dos Belinhos, situa-se um nicho das Almas do Purgatório[7], datáveis do Século XIX.
Cruzeiro do Espírito Santo
Deixado o Cruzeiro do Senhor do Bonfim, entramos na Rua da Cruz. A facear este arruamento, abundam as ricas casas de lavoura, construídas à base de xisto, com ombreiras de portas e janelas em granito aparelhado. Destacam-se as grandes chaminés que chegam, por vezes, a ter a largura da casa e as portas carrárias que comunicam da rua para o pátio interior da mesma. Chegados ao cruzamento com a Estrada que liga Fão a Fonte Boa (Rua D. Frei Bartolomeu dos Mártires). Aqui segue-se em frente, direcção Barca do Lago, entrando na Rua Cândido Vinha. Logo a seguir, do lado esquerdo, encontramos as Alminhas do Arantes.
Estão inseridas num muro de uma propriedade rústica. São de uma arquitectura interessante, de recorte barroco (Séc. XVIII), encimadas por um arco contracurvado cujo fecho remata com um elemento floral estilizado. Possui um painel em azulejo da fábrica Carvalhinho (Gaia) representando N. S.ra das Graças. Neste ponto volta-se à direita. Continuam as casas tradicionais de Fonte Boa, de rica arquitectura, e do lado direito deparamos com uma fachada que ostenta um rico nicho setecentista encimando uma cartela com a data 1753. A seguir, na bifurcação, tomar a Rua Monsenhor Mariz. Este arruamento ainda mantém a primitiva calçada à portuguesa. 
Capela de Nossa Senhora da Graça
Chegamos ao largo da Senhora da Graça (Rua S.ra da Graça). Este espaço merece uma paragem. Aqui tinha assento a extinta freguesia medieval de Alapela, anexa a Fonte Boa em 1542 pelo Arcebispo de Braga D, Frei Bartolomeu dos Mártires. A sua igreja primitiva entrou em ruína sendo substituída em 1701 pela actual Capela. Trata-se de um templo modesto, de arquitectura simples, revestido recentemente a azulejo. Contemporâneo da primitiva Igreja ergue-se nesse mesmo local o velho cruzeiro formado por um plinto quadrangular, assente em dois degraus, com um fuste liso encimado por um capitel de tipo dórico rematado por uma cruz simples. Destaca-se ainda uma frondosa e centenária árvore, que traz ao local um ambiente bucólico. Percorrendo alguns metros na Rua S.ra da Graça, e depois de encontrar uma Alminhas, actuais e bastante simples, do lado esquerdo, entramos na Rua da Estrada Real. Este é, aliás e infelizmente, o único troço da velha Estrada Real, em terras de Fonte Boa, que conserva o seu primitivo nome.
A BARCA DO LAGO
Chegamos à Barca do Lago e ao fim do troço Rates – Barca do Lago. Aqui, num cabeço à esquerda da Estrada Real, vamos encontrar o Outeiro dos Picoutos, outrora denominado Felícia. Pelos vestígios arqueológicos encontrados estamos perante um habitat castrejo, apresentando ainda sinais evidentes de um sistema defensivo, constituído por um fosso e muralha. O monografista Dr. Teotónio da Fonseca[8] descreve que neste local foram encontrados restos de sepulturas, tijolos, vasos cerâmicos, cadinhos e moedas do Imperador romano Maxêncio. Este Caminho de Fonte Boa era muito transitado pois já em 1775 o Abade Vasco da Costa[9] refere-se ao facto de aí passar o Caminho de Peregrinação a Santiago de Compostela e, por essa razão, teria muitas despesas “ no socorro aos peregrinos, servindo a residência e o Pároco, de Hospital, Médico e Botica” dizia mais que era devida “ … a hospitalidade a religiosos e peregrinos … devido ao facto da residência ficar junto à estrada medieval de Viana ao Porto, pela Barca do Lago”.
Estamos certos que no século XVIII, e com a nova Igreja (construída em 1714), Capelas (Senhor dos Passos -1718; Coração de Maria – 1866) e Residência Paroquial[10], o trajecto abandonasse a Rua da Cruz e passasse a ser feito pela Rua Cimo de Vila, seguindo a Avenida da Igreja, entrando na Rua do Freixieiro até à S.ra da Graça.


[1] - O Mosteiro de Rates, como comunidade monástica, perde o seu último monge, Frei Martim Pires, em 21 de Agosto de 1432, ficando reduzida a uma colegiada secular (MARQUES, José (1991) – Os Forais da Póvoa de Varzim e de Rates, Ed. Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, Póvoa de Varzim)
[2] - Aqui se localizaria a célebre, quiçá lendária, lagoa, outrora um complexo mineiro romano ou mesmo pré-romano onde têm aparecido, com frequência vestígios arqueológicos (ARAÚJO, António Veiga de (2001) – Barqueiros: Retalhos da sua História, Ed. Junta de Freguesia de Barqueiros, Barqueiros).
[3] - ALMEIDA, Carlos Alberto Brochado de (1980) – Via Veteris, Antiga Via Romana? - in “Actas do Seminário de Arqueologia do Noroeste Peninsular”, Vol. XIII, Guimarães.
[4] - NEIVA, Manuel Albino Penteado (1997) – Fonte Boa: Passado e Presente, Ed. Junta de Freguesia, Fonte Boa.
[5] . A designação Couto tem a ver com o antigo Couto de Apúlia. Neste local existia a Fonte do Couto – ora retirada para os jardins da Junta de Freguesia de Apúlia pois se ali continuasse iria ser coberta com o talude da Auto-estrada Apúlia – Barcelos (Ver: Nota 20)
[6] - Este Abade foi Comissário do Santo Ofício, Desembargador da Relação e Vigário Geral (morreu em 9 de Março de 1741).
[7] - Nicho em granito provido de um pequeno telhado. O retábulo é em azulejo da fábrica Aleluia (Aveiro) e representa N. S.ra do Carmo, ladeada de Anjos a retirarem as Almas do Purgatório.
[8] - FONSECA, Teotónio da (1936) – Espozende e o seu Concelho, Esposende
[9] - O Abade Vasco da Costa paroquiou Fonte Boa entre 1768 e 1776. Era Licenciado e foi Desembargador na Relação de Braga.
[10] - No edifício da antiga Residência Paroquial ainda se podem apreciar interessantes frescos parietais, representando as quatro estações do ano, a Música e o Canto, pintados por Manuel Cruz Pereira, em 1803.